13.6.05

Adeus Terra

As pessoas não têm noção do quanto é difícil escrever aqui de 2063, do alto dos meus 84 anos, sobre um fato que ocorreu há pelo menos vinte anos, se não está me falhando a memória. Apesar de todas as técnicas de rejuvenescimento criadas ao longo desse tempo, já me sinto cansado e sem muito ânimo para escrever. Cada vez que penso essas palavras – é só preciso pensá-las para colocá-las no que vocês aí em 2005 chamam de papel – tenho que tomar um monte de substâncias para reativar esses fatos do passado. Mais difícil do que escrever agora é mandar um “e-mail” para a terra para conseguir postar essas breves palavras num blog em 2005. Vocês não tem noção de quanta energia isso demanda, e energia não é algo que esteja sobrando aqui em Marte...ops, não era para contar essa parte ainda.

Mas voltemos a 2043. Como eu dizia, as notícias correram o mundo em instantes. Em poucos minutos, todo o planeta estava sabendo do caos que iria se abater sobre as nações. Pelos cálculos dos cientistas, o Brasil seria atingido pela onda nuclear quatro horas depois do impacto nos Estados Unidos. A radioatividade vinda das terras americanas mataria toda a forma de vida existente por onde passasse. Quem conseguisse se esconder, não conseguiria sobreviver ao inverno nuclear, onde mesmo os países tropicais iriam sucumbir em poucos dias a uma temperatura média de 10 graus Celsius negativos. Ainda era meio dia, portanto eu ainda tinha virtualmente 14 horas para me salvar e salvar minha família, que se resumia à Tatiane.

Vocês podem estar perguntando: Mas vocês não tiveram filhos? Não. Porque não podíamos. De 2010 a 2020, depois da revolução brasileira – fato que eu posso explicar mais tarde – todos os casais ficaram proibidos de ter filhos. Quando já podíamos finalmente ter nossa prole, descobrimos que éramos estéreis, por causa da explosão dos transgênicos ocorrida anos antes. Praticamente todo mundo que levava uma vida normal tinha sido esterilizado pelos alimentos que vieram sob a etiqueta da salvação da fome mundial. Encabeçada ainda por nosso presidente reeleito três vezes Luís Inácio Lula da Silva, a campanha mundial acabou provocando a esterilização de 68% da população mundial. Ver crianças pelas ruas era a coisa mais difícil do mundo. E quando alguma surgia eram tratadas como deuses. O problema é que a demanda mundial por crianças aumentou de tal forma, que deixar um filho na rua era sinônimo de desaparecimento. O mercado negro infantil era algo que movimentava mundialmente 200 bilhões de euros anuais.

Enfim ,todos já devem estar cansados de ouvir sobre esse mundo maluco que foi se criando ao longo das primeiras décadas do terceiro milênio. Então vamos aos fatos. Eu estava a caminho do Fórum porque sabia que a Taty iria estar lá. O localizador corporal ainda funcionava e pude perceber quando o sinal foi ficando mais forte a medida que eu chegava perto do imponente prédio localizado na antiga Rua Primeiro de Março, no Centro da então Guanabara. Taty estava me esperando na porta. Eu com meus 64 anos já não tinha aquele pique dos 40, auge da minha forma física, devido às drogas que foram inventadas para fazer de meros seres humanos, atletas. Mesmo assim fui correndo e a abracei. Ela chorava muito. Éramos praticamente só nós dois no mundo. As ruas úmidas – por causa do escapamento dos veículos movidos a célula combustível – do Centro eram um pandemônio. Gritaria, correria, assaltos, uma desordem total. Sem saber o que fazer nos dirigimos à estação de trem, onde a energia já havia sido restabelecida. Pegamos o trem e durante os eternos cinco minutos de viagem permanecemos abraçados sem saber o que dizer um ao outro. No rosto das pessoas só se via a tristeza. Saltamos e fomos em direção ao prédio. No nosso bairro – o Nova Guanabara – criado por volta de 2035 em frente ao que era Copacabana, lá no meio do mar, graças às maravilhosas tecnologias de habitação trazidas pelos chineses – argh logo eles – alguns anos antes, o cenário era estarrecedor. Nossos amigos todos chegando mais cedo do trabalho, com a mesma cara de assustados. Enfim, o que todos intimamente temiam estava para acontecer.

Não sei se felizmente ou infelizmente, boa parte da nossa vizinhança havia se preparado para aquele dia. Em nosso bairro, uma base de lançamento espacial tinha toda a infra-estrutura para nos levar a Marte no dia que tal infortúnio se abatesse sobre a Terra. O moderníssimo ônibus espacial era capaz de levar 20 mil pessoas ao planeta vermelho em menos de um mês. Mesmo assim era difícil aceitar que teríamos que deixar nosso planeta rumo ao desconhecido. Mudar de país já é doloroso. Imagine de planeta. O ônibus tinha provisões sintéticas – o alimento do final da primeira metade do século XXI – para dois meses, portanto ninguém ia passar fome naquele período de viagem. O ônibus era fruto de um “carnê” que começamos a pagar 10 anos antes do prometido cataclisma, quando o mundo passou por ameaça semelhante. A tecnologia de ir ao espaço tinha barateado muito e não era raro fazermos viagens a Lua para descansar nossas almas. O preço da passagem era pouco maior do que é hoje aí em 2005 para ir do Rio a São Paulo. Em Marte, já havia também alguns bairros semelhantes a Nova Guanabara, habitada por 17 mil habitantes, entre homens, mulheres, crianças e híbridos.

As mudanças haviam se tornado mais simples em 2038. As casas e todos os seus gadgetes eram montáveis e desmontáveis em segundos. De certa forma, o mundo estava bem mais preparado para a situação que estava se abatendo do que em qualquer outra época da humanidade. As horas iam se passando e para fazê-la passar mais rápido, todos nos embebedávmos com a mais deliciosa cerveja do mundo. Às 22h todos já estavam na nave esperando pelo lançamento que ocorreria às 23h. Nenhuma operadoras de Holocable funcionava mais. Nesse ponto, não havia quem estivesse trabalhando, não sabíamos então mais de notícia alguma do mundo. Éramos só nós ali e nos bairros vizinhos prontos para o lançamento dos foguetes. A tensão e a tristeza era nítida no rosto de todos. Sentados em nossa posição, eu e Taty apenas aguardávamos o que já estava para acontecer.

- Vai dar tudo certo amor – disse - nós reconstruiremos nossa vida em Marte

O Planeta tinha oxigênio de sobra e já era habitado por 15 mil seres humanos. Não sabíamos o que nos aguardaria lá, pois a comunicação com eles era precária. Não íamos lá porque um ser humano não aguentaria as viagens de ida e volta, que acabavam com os neorônios de qualquer um. Ou seja, ir é uma vez só, não há volta. Os minutos chegavam e nave ligou os silenciosos motores. Aos poucos, com a energia do sol, o motor foi aumentando seu barulho até que explodiu num barulho ensurdecedor. Faltavam poucos segundos para o lançamento. Diziam que sairíamos de uma velocidade de 0 km/h para 500 km/h em apenas 2 minutos. Depois desses dez segundos chegaríamos pertinho da velocidade da luz em 20 minutos. O barulho aumentava cada vez mais. Segurei a mão da Taty e fechei os olhos quando a tripulação eletrônica deu o alerta de 5 segundos. De repente, a nave num impulso inacreditável pulou para a velocidade prevista. Parecíamos que íamos ser esmagados pela aceleração. Pela janela víamos o planeta Terra se afastando e bem ao longe, no continente americano o brilho e o rastro deixado pelos mísseis que iam em direção a então combalida potência mundial...era o fim.

2 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Pow beto que maneiro
pq vc nao escreve um livro
legal!!!!

sexta-feira, junho 24, 2005 11:47:00 AM  
Anonymous Anônimo said...

Amorzinho.. seu texto está maravilhoso.. podia escrever mesmo um livro sobre isso.. te amo vc é d+
Bjs

sexta-feira, julho 01, 2005 1:23:00 PM  

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