Pobres demais
Com o último texto que escrevi aqui no blog acho que perdi minhas oito leitoras. Pelo que me vem à cabeça agora para as próximas linhas, me parece que nem elas, nem ninguém, vão querer mais saber dessa humilde página onde exponho sentimentos que me incomodam de maneira profunda e sincera, e por muitas vezes ranzinza. Acredito que os próximos parágrafos vão expor essa última faceta de forma mais clara.Vamos lá, é preciso coragem. Odeio pobre. Odeio tudo que é relacionado à pobreza, tudo o que é feio, mal tratado, desleixado, sujo, enfim tudo que é asqueroso. Que Deus não me castigue por escrever esse texto, mas acho que até Ele vai entender o que quero dizer, até porque, como todos sabem, Ele está cansado de saber os impropérios que habitam minha cabeça obtusa.
Ando de trem todos os dias. Embora tenha me firmado em minha profissão e ganhe relativamente bem, me dou a esse desfrute todos os dias ao ir e voltar do trabalho. E para quem já andou nesses barulhentos vagões da Supervia, sabe que a pobreza e a feiura pegam carona nessa locomotiva de horrrores. É ali meu laboratório de convivência com a pobreza. E ali ainda será enquanto eu morar ou trtabalhar no mesmo lugar.
A primeira coisa que você vê nesse paradisíaco lugar são toalhinhas. Eu não sei muito bem quem inventou essa coisa dessas minúsculas toalhas. Mas os pobres simplesmente adoram. Não tomam banho de manhã, mas levam sua companheira de todos os dias para enxugar o suor provocado pelo calor infernal que faz algumas vezes nesses vagões. A toalhinha tem múltiplos usos, no entanto. Elas servem tanto para limpar o suor da testa, quanto para tirar meleca do nariz, limpar a remela dos olhos, botar na cara para dormir e até mesmo para tampar as calcinhas daquela menina cuja saia parece mais um cinto um pouco mais largo.
Deixando as malditas toalhinhas de lado, volto minhas atenções para as pessoas. Algumas dormem, outras lêem a bíblia, outras pregam, outras fedem. Mas em comum todas elas têm uma coisa: o gosto por balinhas. Eu nunca vi gostar tanto daquelas balinhas que agarram no céu da boca, paçocas, chocolates de quinta categoria, biscoitos doces, enfim uma série de guloseimas que têm fã-clube certo nos trens. Tenho uma teoria sobre isso. Pobre vive tão mal que tem que adoçar a boca toda hora para esquecer o gosto amargo da vida.
Meu ódio passa dois níveis acima quando aparecem os ambulantes que vendem de tudo, sobretudo coisas que não servem para nada: agulhas de costura, naftalina, fones de ouvido que se partem na primeira música, radinhos que deixam qualquer música – de Caetano a Kelly Key – horrorosas, cordas para pendurar roupas, super bonders falsificados, manuais para empregadas domésticas – vocês acreditam que isso existe? –, tabuadas, cestos para roupas, facas corta-tudo. Como dizia aquele personagem de Miguel Falabella, uma verdadeira visão do inferno.
Pobre também tem mania de ser religioso. Como gostam de pregar o evangelho no trem. Sinceramente, não tenho nada contra, desde que não falem o nome do demônio cinco vezes mais do que o de Deus, que não gritem no meu ouvido, que não me acusem de ser um drogado, uma prostituta, um assassino, um blasfemo, um ímpio, um endemoninhado, um sei lá mais o quê. Desde que não falem que o embaixador Sérgio Vieira de Mello tenha morrido porque não pregou o evangelho de Deus e sim a paz dos homens. Fora que eles fazem rodinhas nas ruas e soltam o verbo contra o mundo que aí está – que têm razão, está um cocô – e que nós, que não fazemos parte da sua igreja, somos os culpados por ele. Tem dias que até acredito.
Já não tenho mais forças para odiar, portanto, cedo esse último parágrafo admiração que tenho, não pela pobreza, mas pela humildade. Não confundir humildade com humilhação. Amo pessoas humildes, que sabem que fazem parte de um conjunto, de um todo, ao qual já chamamos de sociedade. Que sabem sorrir quando são elogiadas. Que sabem ficar quietas quando podem humilhar. Admiro isso, mas nem de longe é o que vejo entre a classe de menor poder aquisitivo do nosso país. Só consigo enxergar a falta de educação, higiene, esperança, a falta de perspectiva de termos cidadãos que possam um dia mudar o mundo que está aí. Fica aí o meu protesto. Quando acabarem de ler podem apagar a luz, afinal não vai sobrar mais ninguém mesmo.

2 Comments:
Eu já havia analisado este fato de que como a probreza é feia.Todas segundas quando pego o trem fico olhando para aquelas pessoas sem um objetivo de vida , acomodadadas com a situação. Sei que também sou pobre, mas realmente gostaria de mudar essa minha condição de vida, já que não posso fazer nada para mudar a dos outros gostaria de tentar mudar a minha rs..
A pobreza parece contagiar...
Quando estamos em um local onde a pobreza é demasiada, acabamos por nos sentir atingidos por ela, parece que um peso se acomoda em nossas costas.
Muitas vezes a pobreza nao é sinal de acomodação, mas de falta de oportunidade, de dificuldade ao acesso da informação, pois infelizmente para tudo se precisa de dinheiro... até mesmo para se procurar um emprego.
Para se ganhar dinheiro, primeiro precisamos do dinheiro. Onde já se viu disso? Mas e a pura verdade. rs
Para concorrer a uma vaga de emprego, precisa-se do dinheiro para a passagem, precisa ter boa aparência, ter algum curso. etc
Enfim... a realidade do Brasil é triste!
E o pouco que podemos fazer, colaborando com uma família menos favorecida, não resolve muita coisa, apenas diminue o peso da coinciência em ter comida na mesa e muitos não.
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