Sobre pênis e patologias

Presumindo que eu tenha mais de oito leitoras, algumas das que lerem as próximas linhas, vão se lembrar dessa situação, que é parte verídica, parte ficção. Pra quem não lembrar, vale a leitura:
O ano era 1998, final de Copa do Mundo, Brasil e França, todos na rua reunidos em volta da TV, prontos para verem o Brasil ser penta campeão. Na Globo, Galvão Bueno anuncia.
- Ronaldinho teve uma crise convulsiva e não se sabe se ele vai jogar e sob que condições isso vai acontecer...
Espanto geral. Todos se perguntando o que havia acontecido. Na minha empolgação vascaína, digo.
-Coloca o Edmundo que o Brasil traz o penta
Afinal, um ano antes, ele havia enlouquecido defensores – sobretudo os do Flamengo – e goleiros, levando o Vasco ao título de tri-campeão brasileiro.
O jogo começa. A França faz um. Faz dois. Faz três. O Brasil é surrado em pleno Champs Elysée. Tristeza geral, ao que se ouve vindo da esquina da rua.
-Vou queimar a mendiga!!!!
Correria geral, alguns empolgados, como eu, ainda dão gritos de incentivo correndo em direção a cena do crime, achando que tratava-se de uma brincadeira. No auge dos meus 19 anos, não se esperava nada melhor que isso de mim. Ao chegarmos perto das coisas da senhora que “morava” embaixo da marquise da esquina de nossa rua, o amigo que havia feito a ameaça, a cumpre. Um fogaréu daqueles, cheiro de gasolina, fez os únicos pertences da mendiga se queimarem em poucos minutos. As discussões começam.Um outro amigo sai no braço com o próprio tio. O caos estava instalado na rua. Aquilo havia virado um verdadeiro pandemônio. Todos se revoltam com o amigo incendiário, q quem vou chamar de J.. Imagine a cena, todos com elevado grau de álcool no sangue, revoltados com o vexame brasileiro no futebol e agora tendo em quem descontar sua raiva, claro, no nosso amigo incendiário.
Nesse tipo de evento, sempre tem um mais valente do que os outros. De repente sai de casa, um outro amigo, a quem chamo de E., querendo tirar satisfações com nosso amigo com gosto pela pirotecnia. Portava uma arma. Ao chegar perto do seu alvo, deu o primeiro tiro. Errou. Mas acertou o próprio sobrinho, que estava do outro lado da rua. Pânico geral. Deu o segundo. Dessa vez, acertou J. (o incendiário) no peito. Não satisfeito, deu outro, que pegou em seu próprio irmão, que tentava separar a briga. Matou o irmão e o seu sobrinho. Depois de tomar consciência do que fez, chorou e enlouqueceu. Pra sempre, nunca mais conseguiu ser normal. Hoje vive num manicômio judiciário.
Felizmente, desde a frase “portava uma arma”, a história resvalou pra ficção. Ele tinha na verdade uma faca. E depois de muita confusão, conseguiram imobilizá-lo e tirarem de sua cabeça a idéia de matar nosso amigo J.
A esta altura do texto, a leitora mais atenta já deve ter percebido que vou falar da polêmica em torno da proibição do comércio legal de arma no país. Engana-se já quem acha que vou defender desveladamente o voto no Sim, ou seja, na proibição do comércio de arma. Engana-se igualmente e mais redondamente ainda, quem pensa que voto no Não.
É certo que se E. portasse realmente uma arma naquela tarde de junho, teria havido uma tragédia sem precedentes na história da Belisário Pena. Por isso é mais do que válido o argumento dos que argumentam a favor da proibição do comércio de armas no Brasil.
Outrossim, a proibição do comércio de armas em nada teria mudado aquela situação. E. não tinha arma porque nunca quis ter. Talvez tivesse consciência de seu temperamento estourado. Se ele realmente desejasse ter uma arma de fogo, ele a teria, sendo o comércio legal ou não. Estão aí os que se drogam para nos dar o exemplo. E assim acredito que vai ser, mesmo com o comércio proibido.
Como diria Valtinho, “primeiro de tudo” (sic) não acho que o cidadão tenha arma para se defender. Ele a tem, mais por símbolo de poder, de que por qualquer outra coisa. Ele projeta na arma, aquilo que não tem capacidade de fazer com as mãos livres: se impor diante dos outros. É coisa de gente que tem um instinto assassino recalcado dentro de si, esperando apenas uma justificativa para libertá-lo e realizar os mais profundos desejos. Elas são usadas para vingança, são usadas para tirar satisfação. Nunca pra se defender. Legal ou ilegal, não as quero perto de mim.
E aí, presumo, quem tem essa patologia assassina não vai se abster de andar armado por causa de uma lei. Gente, isso é Brasil, não a Suíça. Isso a terra da pirataria, da mutretagem, do cafezinho do guarda, do tráfico de drogas, da corrupção no mais alto escalão do poder. E os desgraçados vão continuar com a projeção de seus próprios pênis nas mãos – ou guardados dentro dos armários – esperando aquele vizinho olhar um pouco diferente para sua namoradinha. Pow, pow, pow. Três tiros na cabeça. Igual aos que a França deu no Brasil.
A vitória do Sim no referendo vai ainda nos dar de presente uma nova leva de traficantes – os de arma. Vai ser um negócio tão bom que a concorrência com as drogas vai ser acirrada. Salvo pelo fato de que serão os mesmos bandidos em duas áreas de atuação diferentes. Apenas uma nova fonte de receita para eles se fortalecerem e quem sabe um dia tomarem nossas casas – estejamos armados ou não. Vai dobrar o faturamento. Só assim o país cresce. Ah se o tráfico entrasse na conta do PIB.
Mesmo assim não voto pelo Não. Aliás, pelo sim, pelo não, prefiro me responsabilizar por tirar a arma desses doentes do que por deixá-las nas mãos deles. Não quero ter que conviver com o medo de olhar para uma mulher na rua e ganhar um tiro no meio das ventas. De ir a um churrasco e ser baleado por ser vascaíno. Ou de ser chacinado por um desabafado “filho da puta” no trânsito. Fica aí para as minhas leitoras a reflexão, uma maneira de argumentarem com seus respectivos, que antes desarmado e “indefeso” do que armado e perigoso.
A conclusão a que chego é a que já cheguei três parágrafos acima. Independente de “quem” vencer, somos nós os cidadãos que vamos sair perdendo. Pois continuaremos nas mãos dos bandidos. E também dos infelizes que usam suas pistolas como símbolo fálico – assim como fazem com seus carros – , da projeção da macheza que não têm, porque não nasceram homens mesmo. Não têm nem mãe provavelmente. Nasceram frangotes. Mas esses, fico tranqüilo, não sabem ler mesmo, por isso não chegarão nunca a essa última linha.

4 Comments:
Roberto,
Desculpe a franqueza, mas falar que vai haver tráfico de armas como existe o de drogas é uma tremenda forçação. Pelo que me conste, não temos lojas abarrotadas de gente querendo comprar sua arma. Aliás, já é mais difícil achar uma loja de armas do que uma boca de fumo. Quem compra armas de traficantes é bandido. Que já comprava armas ilegais e vai continuar comprando. Mas a proibição da venda não tem este objetivo. Isto é só o começo, ainda faltará muito a fazer. Mas é preciso começar, não é?
Tava pensando em votar contra a proibição. Eu tenho o direito, como cidadã de um país democrata, de decidir se compro ou ñ uma arma de fogo. É um direito meu ter essa escolha. Mas e os falsos machos q saem apontando o ferro p/ Deus e o mundo? Ñ sei se quero fazer parte dessa votação. Ñ fui consultada, essa história me chegou de surpresa. E outra: sou obrigada a ir às urnas. Ñ sei, agora tô pensando também em anular.
As pessoas gostam do que é proibido, e acabam encontrando um jeitinho de atrair a atenção dos outros para esse tipo de coisa.
Acho que vai instigar ainda mais a compra de armas, só por ser proibido. Mas temos que tentar algo para combater essa violência que vemos todos os dias.
Como se costumam dizer "a esperança é a última que morre".
Oi Beto!! Td bem? Faz tempo q não escrevo pra vc nem pra Tati, mas sempre lembro de vcs. Seus textos continuam ótimos! Continuo adorando mesmo só podendo aparecer aqui de vez em quando! Um abraços pra vcs!
Bellinha (hehe acho q meu nick era esse..)
Postar um comentário
<< Home