24.8.05

Pobres demais

Com o último texto que escrevi aqui no blog acho que perdi minhas oito leitoras. Pelo que me vem à cabeça agora para as próximas linhas, me parece que nem elas, nem ninguém, vão querer mais saber dessa humilde página onde exponho sentimentos que me incomodam de maneira profunda e sincera, e por muitas vezes ranzinza. Acredito que os próximos parágrafos vão expor essa última faceta de forma mais clara.

Vamos lá, é preciso coragem. Odeio pobre. Odeio tudo que é relacionado à pobreza, tudo o que é feio, mal tratado, desleixado, sujo, enfim tudo que é asqueroso. Que Deus não me castigue por escrever esse texto, mas acho que até Ele vai entender o que quero dizer, até porque, como todos sabem, Ele está cansado de saber os impropérios que habitam minha cabeça obtusa.

Ando de trem todos os dias. Embora tenha me firmado em minha profissão e ganhe relativamente bem, me dou a esse desfrute todos os dias ao ir e voltar do trabalho. E para quem já andou nesses barulhentos vagões da Supervia, sabe que a pobreza e a feiura pegam carona nessa locomotiva de horrrores. É ali meu laboratório de convivência com a pobreza. E ali ainda será enquanto eu morar ou trtabalhar no mesmo lugar.

A primeira coisa que você vê nesse paradisíaco lugar são toalhinhas. Eu não sei muito bem quem inventou essa coisa dessas minúsculas toalhas. Mas os pobres simplesmente adoram. Não tomam banho de manhã, mas levam sua companheira de todos os dias para enxugar o suor provocado pelo calor infernal que faz algumas vezes nesses vagões. A toalhinha tem múltiplos usos, no entanto. Elas servem tanto para limpar o suor da testa, quanto para tirar meleca do nariz, limpar a remela dos olhos, botar na cara para dormir e até mesmo para tampar as calcinhas daquela menina cuja saia parece mais um cinto um pouco mais largo.

Deixando as malditas toalhinhas de lado, volto minhas atenções para as pessoas. Algumas dormem, outras lêem a bíblia, outras pregam, outras fedem. Mas em comum todas elas têm uma coisa: o gosto por balinhas. Eu nunca vi gostar tanto daquelas balinhas que agarram no céu da boca, paçocas, chocolates de quinta categoria, biscoitos doces, enfim uma série de guloseimas que têm fã-clube certo nos trens. Tenho uma teoria sobre isso. Pobre vive tão mal que tem que adoçar a boca toda hora para esquecer o gosto amargo da vida.

Meu ódio passa dois níveis acima quando aparecem os ambulantes que vendem de tudo, sobretudo coisas que não servem para nada: agulhas de costura, naftalina, fones de ouvido que se partem na primeira música, radinhos que deixam qualquer música – de Caetano a Kelly Key – horrorosas, cordas para pendurar roupas, super bonders falsificados, manuais para empregadas domésticas – vocês acreditam que isso existe? –, tabuadas, cestos para roupas, facas corta-tudo. Como dizia aquele personagem de Miguel Falabella, uma verdadeira visão do inferno.

Pobre também tem mania de ser religioso. Como gostam de pregar o evangelho no trem. Sinceramente, não tenho nada contra, desde que não falem o nome do demônio cinco vezes mais do que o de Deus, que não gritem no meu ouvido, que não me acusem de ser um drogado, uma prostituta, um assassino, um blasfemo, um ímpio, um endemoninhado, um sei lá mais o quê. Desde que não falem que o embaixador Sérgio Vieira de Mello tenha morrido porque não pregou o evangelho de Deus e sim a paz dos homens. Fora que eles fazem rodinhas nas ruas e soltam o verbo contra o mundo que aí está – que têm razão, está um cocô – e que nós, que não fazemos parte da sua igreja, somos os culpados por ele. Tem dias que até acredito.

Já não tenho mais forças para odiar, portanto, cedo esse último parágrafo admiração que tenho, não pela pobreza, mas pela humildade. Não confundir humildade com humilhação. Amo pessoas humildes, que sabem que fazem parte de um conjunto, de um todo, ao qual já chamamos de sociedade. Que sabem sorrir quando são elogiadas. Que sabem ficar quietas quando podem humilhar. Admiro isso, mas nem de longe é o que vejo entre a classe de menor poder aquisitivo do nosso país. Só consigo enxergar a falta de educação, higiene, esperança, a falta de perspectiva de termos cidadãos que possam um dia mudar o mundo que está aí. Fica aí o meu protesto. Quando acabarem de ler podem apagar a luz, afinal não vai sobrar mais ninguém mesmo.

22.8.05

Pobres homens

Juro que não sei se é para rir ou chorar, ou apenas contemplar. Estou falando das mulheres. Esses seres absolutamente angelicais – e demoníacos quando querem – sem as quais, nós pobres homens, pobre mortais e heterossexuais, não podemos viver. E "pobres" agora toma um sentido muito mais amplo, muito mais original, no sentido epistemológico da palavra. É que, ou eu estou tendo uma visão completamente deturpada do mundo – e nesse caso me falem, pois procurarei tratamento – ou elas simplesmente desistiram de tudo pelo qual lutaram desde a vida toda, ou pelo menos parte dela: igualdade perante os homens. Corro o risco de perder todas as minhas leitoras, mas ainda sim vou dar prosseguimento a minha linha de raciocínio.

O que vejo hoje é a mais absoluta infelicidade entre as mulheres que conseguiram ascensão profissional na vida. Elas se tornaram – salvo exceções – pessoas amarguradas por não poderem dar toda atenção aos filhos, estressadas com o dia-a-dia profissional e cada vez mais sujeitas a ataques do coração, coisa que não existia entre as nossas princesas de duas décadas atrás. Muitas deixam o casamento em segundo plano para se dedicar à vida profissional. O resultado é a criação de solteiras de 30 a 40 anos, buscando a felicidade na profissão. O lugar mais difícil de achá-la.

De forma alguma quero que esse pareça um texto machista, mas hoje vejo um movimento contrário entre as seguidoras de Vênus, ou Afrodite, como preferem alguns. As mulheres mais maduras estão querendo voltar para casa, cuidar do lar e dos filhos. Preferem deixar nas mãos do marido a responsabilidade por garantir o pão e o circo nosso de cada dia – e ainda por cima um motelzinho no fim de semana. Se há essa chance de elas largarem o emprego e isso não representar queda brusca no padrão de vida, pode ter certeza que elas irão.

Por outro lado, as meninas mais jovens procuram homens amadurecidos, capazes de lhes dar suporte emocional e profissional e ainda por cima, que possam lhes levar para jantar em um restaurante caro uma vez por mês. Isso claro, quando resolvem namorar sério, já que quando o negócio é só "ficar", essa regra vale, mas num sentido um pouco diferente. Basta que o cara seja interessante, tenha um carro e espírito de juventude. Pedras são bem vindas das meninas que nunca pensaram assim. Lembre-se: ir a praia de ônibus com o ficante não é lá o programa dos seus sonhos é? Ao motel nem se fala.

O que quero dizer é, que se aquelas operárias têxteis lá daquela fábrica de Nova Iorque soubessem que o movimento ao qual dariam origem fosse terminar nisso, não teriam pego aquele bronzeado que provocou a morte de 130 delas. Hoje elas assumem cargos de diretoria, são maioria e mais bem sucedidas nos cargos de chefia, mandam nos homens dentro das empresas, têm todo os direitos pelos quais lutaram a vida toda. Mas querem por que querem uma vida mais tranqüila, a frente do lar. Afinal lidar com os filhos e o marido, na maior parte das vezes, é melhor do que se submeter às pressões da rotina corporativa-capitalista dos nossos dias.

Como toda regra, há exceções. Existem ainda mulheres que querem ser tão ou mais poderosas do que os homens. Embora elas mal saibam que sempre tiveram esse poder sobre nós sem precisar mover uma palha, ou melhor, bastando cruzar uma perna, acham que podem tê-lo e querem tê-lo. E podem sim, já provaram isso. Mas esse tipo de mulher está se acabando aos poucos. O Dia Internacional da Mulher vai ter outro sentido daqui há duas décadas – se já não o está tendo hoje. E a responsabilidade financeira voltará para nós homens, pobre homens, que vamos ficar cada vez mais pobrezinhos, mas com o orgulho restabelecido de poder sustentar o lar.